quarta-feira, 24 de maio de 2023

Nós precisamos dessa heroína


Anna Mae “Tina Turner” Bullock
(1939 - 2023)

Se foi Tina Turner. Que mulher inacreditável. Que vida inacreditável. Deveria ser disciplina obrigatória para cada geração nos próximos dez mil anos. Garanto que cada menina e cada menino entraria na Cúpula do Trovão com sangue nos olhos para encarar o que a vida trouxesse.

De origem muito pobre, saída dos cafundós do Tennessee, Anna Mae transcendeu, sofreu o diabo e perdeu tudo, mas assumiu o controle e reescreveu sua própria história. Que está aí, para todos verem, lerem, ouvirem, aprenderem. Ela foi coração, foi coragem e foi um talento maior que o mundo. Uma guerreira do mundo real.

Na barriga da miséria, Tina Turner só não nasceu brasileira por um mero acaso.


Rainha do Rock and Roll é pouco.

terça-feira, 23 de maio de 2023

Sempre teremos Gálador


Uma linda capa de Frank Miller...

"Talvez um dia relancem. Basta a Disney querer." — há algum tempo, sonhando acordado.

A rápida — e marota — aparição em Coleção Histórica Marvel - O Incrível Hulk vol. 12 parecia um bom presságio. Mas também algo improvável. Vai saber que acordo mefistofélico a Marvel e a Hasbro fizeram para se alinhar sobre o ROM. Finalmente.

Para mim, o material original de Bill Mantlo e Sal Buscema é uma bem-vinda anomalia: é tão espírito de seu tempo quanto atemporal. E divertida pra caramba. Fora que a saga do Cavaleiro Espacial, hoje, tem potencial para voos muito maiores.

Com os pés de volta ao chão, por hora, o Busão está de bom, boníssimo tamanho.

E, mais importante, que não e$queçam do Bill Mantlo.

sexta-feira, 12 de maio de 2023

Até mais, Guardiões da Gunnláxia


Guardiões da Galáxia Vol. 3 passa a nítida impressão de um James Gunn tirando um peso enorme das costas. Compreensível. O filme representa o fechamento de um extenuante ciclo criativo e pessoal. Fora a pressão, o ritmo industrial e a saturação que assolaram o MCU nos últimos anos, cabe lembrar que o cineasta conheceu o céu e o inferno do showbiz em tempo recorde — com direito a um raríssimo "descancelamento" no processo. Mesmo com o cenário desfavorável e as malas já desfeitas na casa nova, o filme parece alheio a tudo isso: Guardiões da Galáxia Vol. 3 é espetacular. Para mim, o pipocão do ano até aqui. Mas com profundidade. E conferindo um sutil senso de conclusão à trilogia.

Senso de conclusão, não uma conclusão per se, claro. Afinal, é da Marvel que estamos falando.

Gunn finalmente realiza a catarse que vinha tramando desde 2014. Despede-se em grande estilo e ao mesmo tempo mostra que guardou o melhor para o final. E por que guardou. Vamos combinar, o sujeito é um prodígio neste segmento. Não é todo mundo que consegue amarrar tantas pontinhas soltas, alinhar a continuidade da série própria com a cronologia-matriz, desenvolver e pontuar a jornada pessoal de pelo menos oito personagens do núcleo principal e ainda entregar o fanservice de ação e efeitos alucinantes que se espera e mais. Vol. 3 conduz tudo numa sintonia tão fina que passei pano para as eventuais deficiências com um sorrisão estatelado no rosto.

Como já comentei antes, uma das qualidades mais bacanudas do cinema-gibi de Gunn é o bizarro, o ridículo e o colorido assumidos em toda a sua glória. E isso é praticamente o código-fonte de uma HQ de super-herói. Os tons exagerados e lúdicos montam o palco perfeito para a violência demencial e até mesmo o body horror do velho Gunn veterano da Troma.

Neste sentido, fazia tempo que não via o PG-13 levando tanta estocada de um diretor. Desde o Duas-Caras, para ser exato.


Na premissa, a comunidade de Lugar Nenhum é atacada por um superser e um dos Guardiões acaba ferido gravemente. Dali em diante, é aquela mesma pegada space road movie, com os heróis correndo contra o tempo para salvar a vida do amigo. Simples assim. E método-Stan-Lee-de-criar-roteiros assim. Se foi intencional ou não, vai saber. Mas há nesta síntese uma beleza poética para gibizeiro que devorava Marvel durante os anos 1970-1980 nenhum botar defeito. E isso não se encontra mais nem nos quadrinhos atuais, meu chapa.

É notável a facilidade do diretor em dialogar com todo tipo de público — tanto que, nos minutos iniciais, pensei seriamente em mudar de cadeira para fugir da tagarelice de um grupo de menininhas que estava na fileira de trás, mas, ao que parece, o filme foi universal o suficiente para calar engajar todas elas, que passaram a se expressar apenas nos momentos adequados. Idem para os tiozões do zap que estavam ao lado. Isso teve muito a ver, principalmente, com uma das marcas registradas de Gunn: as piadinhas.

Elas estão mais bem inseridas, embora algumas ainda se estiquem demais após a punchline. O que foi um problema para mim, mas não para a maioria na sala, que se mijou de rir. Então fechou. Ainda mais porque elas não atropelam as pausas dramáticas e emocionais, uma patinada recorrente em todo o catálogo da Marvel Studios. Aqui, as cenas sérias foram devidamente respeitadas, sendo, de longe, as mais bem elaboradas da filmografia do diretor. Algumas triscam perigosamente a linha do melodrama, mas ao menos dois momentos são de arrasar até os corações mais gélidos. Mesmo.

Ainda nesse toma lá/dá cá de altos e baixos: música demais. Sei, sei, a franquia dos Guardiões resgatou a trilha jukebox para o mainstream, piriri, pororô. Mas, de novo, é música quase o tempo inteiro. E obedecendo a regra, já estava meio que repensando a experiência e o cara me vem com as clássicas "We Care a Lot" e "No Sleep Til Brooklyn" — esta última rolando no talo durante uma das sequências de porradaria mais eletrizantes do MCU.

Acertou em cheio o meu Calcanhar de Aquiles Funk Metal.


Na já extensa galeria de vilões do MCU, é seguro afirmar que o Alto Evolucionário merece um lugarzinho lá no... alto. O ótimo Chukwudi Iwuji defende com paixão as motivações de seu personagem e constrói uma figura calculista e absolutamente cruel. Com talento ímpar, ele vai preenchendo várias camadas do perfil unidimensional do geneticista. Há uma cena de derrotismo intelectual que é simplesmente fantástica. Logo se vê que aquilo não é material Hollywood. Não mesmo.

Em que pese sua grande atuação e mais o surrealismo de ver a Contraterra numa telona, o visual do personagem, um tanto cospobre, não ajudou. O jeito foi abstrair e curtir a piadinha com um ícone do cinema-porrada oitentista. Aquela foi boa.

Will Poulter, por sua vez, teve a ingrata missão de personificar um Adam Warlock que de jeito nenhum é o Adam Warlock. Pelo menos, não aquele que estou olhando agora na lombada de Guerra Infinita. Criado pelos Soberanos para se vingarem do balão que tomaram dos Guardiões no início de Vol. 2 (olha outra ponta amarrada aí), o personagem é meramente uma muleta com a mecânica de qualquer variante do Superman. Aliás, aquilo seria um trabalho para o Gladiador, se Kevin Feige não fosse tão FRANGOTE com qualquer coisa ligada aos X-Men nos cinemas. #prontofalei

Mas, aí, consigo ver esse Adam Warlock amadurecendo e virando Adam Warlock um dia.

Em relação aos Guardiões como um todo, rola mais uma vez aquela admiração pelo que a Marvel construiu ao longo dos anos. O ambiente de trabalho deve ser incrível. A química de todos em cena soa tão natural quanto poderia. O Peter Quill deprezaço de Chris Pratt, a Gamora resetada de Zoe Saldaña, a Nebulosa upgradeada de Karen Gillan, o Groot mais parecido com o Vin Diesel até agora, o Drax nonsense de Dave Bautista e até a despropositada Mantis de Pom Klementieff funcionam por serem disfuncionais. É a vitória dos outsiders. E viva as diferenças.

E na nota mental-marvete, os Saqueadores ganharam seu melhor visual nesta saideira, lembrando até a equisitice da velhusca Legião Alien. Cof, cof.


E entre tantas ramificações e amarrações, o filme é do Rocky Racum. Malandramente, Gunn protelou por anos até revelar a sua origem cinematográfica — diferente das HQs — e foi um golaço. É emocionante, é impactante, é visceral. James Gunn escolhe não aliviar para o espectador em nenhum momento. O resultado é corajoso e incomum vindo de um blockbuster. Especialmente difícil para quem gosta de animais, mas levanta uma discussão urgente e necessária.

São soberbas as performances vocais de Bradley Cooper e de Linda Cardellini (a Laura Barton) no papel da doce lontrinha Lylla. Que, por sinal, trocou de espécie. Já o morsa Teefs/Wal Russ ficou igualzinho. E certamente o maravilhoso quadrinho WE3: Instinto de Sobrevivência, de Grant Morrison e Frank Quitely, foi uma grande referência para o diretor.

Será que um dia ele volta? Foi Gunn demais enquanto durou...

terça-feira, 9 de maio de 2023

Essa tal de Rita Lee


Rita Lee Jones de Carvalho
(1947 - 2023)

Não foi exatamente uma surpresa, mas o choque... ah, esse foi inevitável.

Rita Lee é uma figura tão arraigada na vida da minha geração, que é difícil conceber que ela não estará mais aqui, fisicamente, na vanguarda contra a caretice estabelecida. Essa ficha vai demorar a cair. Quiçá, nunca. Mas a arte, como dizem, é eterna. E a Rita tratou de providenciar isso desde seus anos no grupo Os Mutantes.

Conheci a Rita na fase pop açucarado, pós-Tutti Frutti, ao lado do marido Roberto de Carvalho. Na época, era um moleque e fiquei nada menos que arrebatado pela imagem da mulher mais sexy e cool que já tinha visto na vida.

Mulher não, deusa. Do rock, do pop, o que seja. Mas deusa.

No tempo certo e nas circunstâncias certas, fui conhecendo a obra completa. E os shows. A sagacidade. O humor. As tiradas. E o ativismo. Rita Lee iria me acompanhar por muito tempo ainda. Chuto, de voleio, que para sempre.


Obrigado por tudo, Rita Lee!

domingo, 7 de maio de 2023

A Amazon adverte


Ué, deu nem 3 quilos.

Do que o povo de Cajamar está falan...


Ah.

Vida e obra do infame Rodrigo Bórgia. Nunca li. De fato, é meu primeiro quadrinho não-pornochanchada do Milo Manara. E em companhia do Jodorowsky, o que é melhor ainda.

Méritos para a Pipoca & Nanquim pela visão e por fazer acontecer.

A HQ estava fora de catálogo há uns dez anos. Quando saiu em 4 volumes pela Conrad, não deu pra mim. Era o preço de uma retina. Ou duas.


Deve ser uma experiência deveras enriquecedora. Penso em reunir o catecismo local para uma leitura com slides.

Quem sabe até na missa de domingo...!

quarta-feira, 3 de maio de 2023

Os Marvels


Gosto do Shazam de Os Novos 52. Pronto, digitei.

Acho a reformulação de Geoff Johns uma atualizada bem-vinda e auspiciosa para o superguri octogenário de Bill Parker e C.C. Beck. Na busca por uma ponte com a nova geração, algumas mudanças foram até radicais, caso do próprio Billy Batson. Mas, mesmo nelas, a HQ manteve boa parte daquele charme incipiente da Fawcett na Era de Ouro. É um comic na mais pura acepção da palavra (mágica). Então, foi uma boa surpresa ver essa fase servindo de blueprint em Shazam!, de 2019, e também neste Shazam! Fúria dos Deuses. Foi a saída pop para o Capitão Marvel.

A direção é do mesmo David F. Sandberg com roteiro do mesmo Henry Gayden, agora em companhia de Chris Morgan, da franquia Velozes & Furiosos. Em outras palavras, quem não gostou do 1º filme vai gostar menos ainda do 2º. A nova produção tem os mesmos vícios, forçadas de barra e infrações graves às leis da Física. Mas a química do núcleo principal, as referências e a dinâmica de aventurona oitentista valem o ingresso.

Ou o play em sua fonte de preferência, já que Fúria dos Deuses foi um dos maiores fiascos de bilheteria do Universo Estendido DC.

Não merecia. Cheguei a rascunhar uma lista de filmes da DC que são flagrantemente inferiores, como os dois da Mulher-Maravilha, Esquadrão Suicida de 2016, Liga da Justiça, o agregado Adão Negro... mas a lista já estava enorme e alçando o Capitão Fraldinha a um Cidadão Kane de capa e é bem longe disso. O filme é só uma bobagem divertida e pueril para quem precisa de bobagens divertidas e pueris. E o mais importante: se assume como tal.

Note que usei aí minha melhor lábia de Zeca Urubu vendedor de carros usados.


A história segue a deixa do 1º filme, em que Billy repassa aos irmãos adotivos a senha do Wi-Fi para os poderes do Mago Shazam — tecnicamente, os poderes de um panteão de divindades greco-romanas e de uma suposta figura histórica hebraica, canalizados pelo Mago através de seu cajado, o MacGuffin de Fúria dos Deuses. Logo no início, os garotos e garotas aparecem atuando como uma "Shazamília" (ou seria "Família Marvel"?) e sofrendo com a falta de experiência e de espírito de equipe. A opinião pública, claro, não perdoa.

A estrutura é bem Marvel: vida secreta de super-herói, dificuldades de manter o grupo unido, problemas financeiros do lar adotivo, bullying na escola e, no caso de Billy, a iminência da maioridade o obrigando a seguir seu próprio caminho. Em meio a tudo, a chegada das Filhas de Atlas reivindicando os poderes divinos de seu pai que, por acaso, estão com os Marvels... ops, Shazams.

A premissa é um pires, porém o cânone era minimalista por natureza. Em contrapartida, o filme tem nada menos que dez co-protagonistas. Impossível montar algo nivelado e com uma distribuição razoável de diálogos. Zachary Levi, que embolsou 3 milhões e meio de doletas nesta sequência, obviamente monopoliza o tempo de tela. Já Asher Angel, como Billy Batson, teve uma participação ridícula em relação ao 1º. Trabalhou de bandido, o jovem. Neste sentido, o carismático Jack Dylan Grazer, reprisando o papel de Freddy Freeman, é o principal Júnior do filme. Sobra bem pouco para dividir entre os demais.

Para maquiar um pouco as deficiências, Sandberg usa elementos do gênero coming of age. A inspiração são produções como Deu a Louca nos Monstros, Uma Noite de Aventuras, Conta Comigo e até a série Anos Incríveis. O tempo todo Billy usa uma camiseta dos Goonies. O que funciona até certo ponto, já que o assunto principal da trama é outro e, bem, não estamos mais nos anos 1980. Infelizmente.

Pior é o fato dos meninos não serem nem de longe parecidos com suas contrapartes superadultas. Nem na fisionomia, nem no tom das interpretações — incluindo aí o "Capitão Marvel Jr."/Freddy Freeman adulto do Adam Brody (que fazia o nerdão Seth Cohen na novelinha The O.C. há 5 mil anos A.C.). Isso ocorre, literalmente, com os meninos, porque as meninas brilham.

Meagan Good está em sintonia perfeita com a atuação da figurinha Faithe Herman no papel da simpática Darla. E a Mary Bromfield de Grace Caroline Currey (de A Queda) simplesmente veste o traje de super-heroína, me deixando com uma certeza: Grace é uma graça.

Com isso, ela também gera um rombo na parte do roteiro sobre "identidades secretas". Quer saber? Tô nem aí. Quero um filme solo da Mary Marvel.


Um pecado foi submeter Lucy Liu e a maravilhosa Helen Mirren — as vilãs Kalypso e Hespera, respectivamente — a um figurino que parece sobra de produção dos Power Rangers. Mesmo assim, Dame Mirren parece à vontade e entrega 0.000½ de seu talento, o que, comparada ao resto do elenco, equivale a uma supernova dramática. Já Lucy Liu só bate ponto e está absolutamente canastrona, atuando como se estivesse tentando lembrar se deixou a torneira aberta em casa.

A presença de ambas só reforça a nova realidade do mainstream hollywoodiano. Cedo ou tarde, todos trabalharão numa adaptação de quadrinhos. O que deve tirar o sono do Martin Scorsese.

Um ponto bastante positivo foi o retorno de Djimon Hounsou como o Mago. Os bate-bolas dele com o Freddy são espirituosos e algo atrapalhados, no bom sentido. E, em dado momento, o Shazam Sênior praticamente repete o visual do Papa Meia-Noite, personagem de Hounsou em Constantine. Pagaria para ver esse crossover.

Na boa sequência em que a cidade é atacada por Ciclopes, Minotauros, Manticoras e Harpias (que tanto queria ter visto nos longas da Maravilha) é impossível não lembrar dos deliciosos clássicos com a mão de Ray Harryhausen, como Fúria de Titãs, Jasão e os Argonautas e a série de filmes do Simbad. E também evidenciou algo que já acontecia desde os primeiros minutos — morre gente para um caralho nesse filme. Inclusive como resultado direto das ações dos heróis. É algo no nível "precisamos de um recordatório do Mark Millar aqui!"

Parece que alguém na Warner mandou largar mão do PG-13 que depois ele resolvia com os censores. Geoff Johns, foi tu, meu filho?

No final, apesar dos tropeços, a experiência foi deveras satisfatória. Certo que assistirei outras vezes. Talvez n'alguma Temperatura Máxima com aquela moqueca, muita pimenta, cerveja trincando no bucho e um joguinho do Galo ou da Lusa na sequência.

Quanto ao nome do herói e as opções à pegadinha óbvia com a sua transformação, para mim, não há dúvidas...


O Billy Batson dos anos 70 é que sabe das coisas.

Ps: quando moleque, queria muito dar uma surra nesse cara.
Pps: tem duas cenas pós-créditos, bobas, esquecíveis e caras de mamão. Mas eu ri.

quinta-feira, 27 de abril de 2023

SALUD!


Peter Pank de volta ao Brasil via Comix Zone Pank que pariu!

Dos meus sonhos de republicações, esse era dos menos prováveis. Mas já tem uns 30 anos.

quarta-feira, 26 de abril de 2023

A volta da Formiga Atômica


Homem-Formiga e a Vespa: Quantumania dá sequência ao segmento mais Sessão da Tarde da Marvel Studios. E cumpre bem sua missão, diga-se. Em termos de escopo, dá até para afirmar que Quantumania é o Vingadores: Ultimato do Homem-Formiga. Paradoxalmente aos diminutos heróis e heroínas, no filme tudo é diverso e grandioso. A grande referência do diretor Peyton Reed certamente foi o universo de Star Wars, com seus diferentes mundos, espécies e culturas. O que, ao pé da Marvel, pode e deve ser traduzido como histórias a perder de vista. O trocadilho ruim vai de brinde.

Uma impressão que tenho desde Homem-Formiga, de 2015, e intensificada por Homem-Formiga e a Vespa, de 2018, é da extrapolação deliberada dos limites do personagem. O universo subatômico sempre foi muito mais o métier de sua contraparte da DC, o Eléktron — no original, "Atom", cuja estreia nas HQs se deu 3 meses antes, em outubro de 1961. Quarks me mordam se isso não foi mais uma roubada de bola da Marvel nos cinemas.

Para compensar, a DC chegou primeiro na Atlântida...

Mas o maior feito de Quantumania talvez tenha sido o de arrumar a casa depois do evento Ultimato. E o formigão Scott Lang, por incrível que pareça, teve muito a ver com tudo aquilo. Foi na cena pós-créditos do 2º filme que ocorreu a primeira resposta cronológica ao Estalo de Thanos no final de Guerra Infinita. O que acachapou o público que não lê gibi e não está acostumado com essas coisas.

Além disso, o Homem-Formiga foi o fio condutor do épico que concluiu a fase 3 do Universo Cinematográfico da Marvel. O que acachapou o público que lê gibi e está acostumado com essas coisas.

A premissa é a pura fórmula Disney. O herói está curtindo uma idílica vidinha de subcelebridade, o relacionamento com Hope, a Vespa, é sonho de uma noite de verão, a filha Cassie está com 18 e os sogros Hank Pym e Janet van Dyne estão finalmente reunidos. Tudo está às mil maravilhas até que um experimento suga todos para o Reino Quântico. Ao contrário do lugar estéril e asséptico que imaginavam, eles se deparam com um mundo repleto de vida, com tecnologia avançada e dominado por um tirano. Também descobrem que Janet esteve bastante ocupada nos 30 anos que passou no exílio quântico.

A versão disso com fidelidade aos quadrinhos é o sempre divertido Querida, Encolhi as Crianças, de 1989, onde ninguém fica menor que saúvas.


Primeiro e mais importante: é a estreia cinematográfica de Kang, o Conquistador. Arqui-inimigo jurássico e juramentado dos Vingadores e complexo até a medula para adaptar. Só com uns 15 anos de cronologia obsessivamente coesa de filmes e séries interligados isso seria possível e, olha só, a Marvel tinha o pacote completo.

Aliás, o termo "cronologia" é deveras adequado para um personagem que reescreve a sua própria o tempo todo. Kang não tem uma vida linear. Tem infinitas versões de si mesmo em vários pontos do tempo e do espaço e, tecnicamente, é impossível de ser morto. Seus doppelgängers não são flor que se cheire — os mais bonzinhos são completamente loucos, como Aquele que Permanece, o mágico por trás da 1º temporada de Loki (?reliops, spo). E o Kang de Quantumania é vilão por excelência, numa muito boa atuação do figura Jonathan Majors.

Deve ter feito um laboratório excepcional. Ou se baseado em alguma experiência própria, sei lá.

É sempre um prazer ver veteranos abarrotando suas contas bancárias enquanto se divertem em cena. É o caso de Michael Douglas e Michelle Pfeiffer, novamente em ação num filme pipoca. Até Bill Murray comparece num cameozinho pra lá de manjado. Duvido que os três tenham se acostumado a contracenar com o vazio absoluto num imenso set verde. E duvido que tenham sequer arranhado o resultado final das cenas após o tratamento digital. Mas não duvidaria se me dissessem que é o filme da Marvel com a maior quantidade de CGI já produzido.

Felizmente, a textura artificial não me incomodou nem um pouco. Veremos daqui a uns anos.

A Vespa/Hope de Evangeline Lilly continua doce, carismática, corajosa e proativa, embora em nada lembre a igualmente doce, carismática, corajosa e proativa Vespa das HQs — que era a Janet, por sinal, e faça um favor a si mesmo e (re)leia a deliciosa Homem-Aranha #84, da Abril. Em relação aos filmes anteriores, ela teve menos espaço desta vez, porém a melhor sequência de ação F/X, a da "Tempestade de Probabilidade", é co-protagonizada por ela.

Kathryn Newton é a terceira atriz a dar vida à Cassie Lang. Pessoalmente, havia gostado da breve atuação de Emma Fuhrmann em Ultimato, que é cinco anos mais nova que a Newton, inclusive. Vai entender. O fato é que a Cassie 1.8 é uma jovem adulta ainda com uma aborrescência vestigial correndo nas veias. Mas vem do ativismo dela algumas infos importantes sobre o caos social causado pelo Blip, como o aumento calamitoso da população de sem-tetos após o retorno dos 50%.

E mais uma vez me pergunto quando a Disney+ vai bancar uma série Marvel protagonizada por pessoas comuns, como nos quadrinhos Damage Control, The Pulse e Código de Honra. Seria ideal para abordar esses aspectos mais sociais e mundanos.


O filme também presenteia Paul Rudd com as melhores deixas dramáticas da série até aqui. Nunca vi Scott tão desesperado e com sangue nos olhos. A cena em que Kang precisa quebrar o herói para coagi-lo a obedecer até é previsível, como tudo no filme, mas espetacular pelo nível da troca entre Rudd e Majors. É um ator brilhante e o melhor comediante do MCU, fácil. Paul Rudd merece o mundo. Mesmo que seja o subatômico.

O grande problema de Quantumania está mesmo no excesso de convenções do roteiro de Jeff Loveness (de Rick & Morty e diretor do próximo filme dos Vingadores). Isso vai desde o exército de Kang, composto por sub-Stormtroopers ainda mais incompetentes, até o deus ex machina do final que deu para telegrafar nos primeiros cinco minutos do filme, sem brincadeira. Do lado positivo, não derrapa nas regrinhas básicas de storytelling e consegue criar mais atalhos para ideias da... Casa das Ideias.

O resgate da guerreira Jentorra, papel de Katy O'Brian, foi um desses. Jentorra é do mundo subatômico K'ai e sobrinha da saudosa Rainha Jarella, que a partícula de Deus a tenha. Penso também em possibilidades como os Micronautas de Michael Golden e Bill Mantlo, mesmo originários de uma linha de brinquedos hoje moribunda.

Fora o Quarteto Fantástico, com filme marcado para 2025 e que tem tudo a ver com esse contexto de "Família Sci Fi" X pseudociência pop.

E precisamos falar sobre o M.O.D.O.K. — ou Mecanorganismo Operacional Destinado à Ocisão e Carnificina, na versão pt-br atual. Admiro a coragem, mas esse ícone da bizarrice Kirbyana não foi feito para funcionar fora dos quadrinhos. Ao menos não a sério. No filme, nunca passa da galhofa, porém, rende a boa piadinha com o acrônimo e a sua última cena, que me fez rachar o bico com gosto.

Fazer o quê. Sessões da Tarde têm dessas coisas.

Ps: rolam duas cenas pós-créditos. Ambas relevantes. 🐜 🐜