quarta-feira, 10 de setembro de 2008

HIPPIES DON'T LIE


Peso, lisergia e lirismo diretos de Estocolmo, Suécia. O Siena Root poderia ser mais uma banda de garotos que amavam Zeppelin, Purple & Sabbath, não fossem as relações realmente estreitas com o dito "classic rock" - e o talento necessário para tal. O grupo foi criado no fim dos anos noventa pelo baixista Sam Riffer e pelo baterista Love H Forsberg ("Love", para os íntimos), que já tocavam juntos há quase dez anos. Logo arrendaram KG West (guitarra, órgão, cítara [!], backings e clone do Urso do Cabelo Duro) e Oskar Lundström (vocais). Com essa formação, gravaram o excelente debut, A New Day Dawning, de 2004. Pouco depois, Oskar saiu da banda e foi substuído pela cantora Sanya. Com a vocalista, eles lançaram seu segundo disco, Kaleidoscope, de 2006. No ano seguinte, ela deixou o grupo, dando lugar a Sartez, que cantou no novo álbum, Far From The Sun - e que, até onde sei, ainda continua na banda.

As constantes mudanças de frontmen seria algo desastroso em qualquer grupo, mas o que acontece com o Siena Root é a profusão de um fenômeno raro. Quantas vezes na história do rock'n'roll um cantor cedeu espaço a outro tão bom ou até melhor? E que compreende exatamente o que a banda precisa naquele momento? Os casos são poucos e notórios - de cabeça, vou aí de Bon Scott/Brian Johnson (AC/DC), Ozzy/Dio (Sabbath), Gillan/Coverdale (Purple), Di'Anno/Dickinson (Maiden) e Halford/Owens (Judas). No grupo sueco isto aconteceu três vezes em três discos (100% de "reaproveitamento"!), sempre com resultados excepcionais.

O trio de vocalistas é peculiar ao extremo. Cada um tem um estilo bem diferente dos demais. Oskar Lundström, o primeiro pródigo, tem influências de soul, inclusive com timbre e alcance próximos do lendário Glenn Hughes. Quem conhece, sabe o que isso significa (e deve estar me acusando de heresia agora). Já a gatinha Sanya ouviu muito o Robert Plant dos áureos tempos e deve cantarolar "Since I've Been Loving You" em casa sem fazer feio. É uma cantora incrível. E Sartez... é glam. Mas glam, glam mesmo, com um estilo espetacularmente andrógino. Tenha em mente Ian Hunter (Mott The Hoople), Marc Bolan (T. Rex) e Bowie fase Ziggy Stardust. Mais uma vez, a banda foge do lugar comum e mantém o alto nível.


Apesar do trampo nivelado dos três à frente do Siena Root, Sanya é de longe a mais cultuada entre os admiradores do grupo. Muito marmanjo ainda choraminga pela saída da moça e é fácil entender porque.

No vídeo a seguir, ela faz uma releitura sensacional de "Coming Home", faixa de abertura do primeiro disco, cuja linha vocal (de Oskar) é dificílima.


Impossível não lembrar de Plant no filme The Song Remains The Same, mais precisamente nas cenas ao vivo no Madison Square Garden.

Como de praxe, os três álbuns do Siena Root continuam inéditos por aqui. Espero que não por muito tempo. Discoteca básica para qualquer stonerhead ou simplesmente fãs de Música.

sábado, 6 de setembro de 2008

BACK TO THE FRONT


Tempos modernos. Ao lado do Google Chrome, o leak do novo álbum do Metallica foi o evento da semana. Death Magnetic será lançado oficialmente no próximo dia 12, mas uma loja francesa queimou a largada e patrocinou uma verdadeira farra P2P mundo afora. Numa postura bem diferente da época em que comia napsters no café da manhã, Lars Ulrich tem se mostrado mais compreensivo na questão: "Todos estão felizes. Estamos em 2008 e isso faz parte de como são as coisas agora, então tudo bem. Nós estamos felizes.". Mais compreensivo ainda foi a bandeira branca sinalizada por ele sobre as releituras de clássicos do grupo feitas por fãs no YouTube. Não que essa declaração tenha vindo do fundo do coraçãozinho ardiloso do baterista, mas o Metallica de fato tem reavaliado sua posição em relação à web. Vendas online de registros ao vivo e divulgação de músicas inéditas via streaming de qualidade revelam uma boa vontade (ou necessidade) em dialogar com esse novo mercado. Nada mais simbólico do que uma banda que é a personificação do establishment-rock revendo seus próprios conceitos.

Tudo isso e a eterna promessa de retorno às raízes criativas só aumentaram as expectativas em torno do disco novo. Sem entrar em méritos mercadológicos, Death Magnetic já é o álbum mais contundente do Metallica desde And Justice for All (1988). Estão lá as seções rítmicas brutais de Lars e do ex-suicidal Robert Trujillo, a artilharia pesada das guitarras, os andamentos deslavadamente thrash da velha escola. Tem o Kirk Hammett de volta aos solos. Tem James Hetfield puto da vida, em vários momentos mandando as melodias pro inferno e esmerilhando a goela como em 1986. Sem dúvida o grupo recuperou muito daquele velho e irrefreável punch. Mas não totalmente, à despeito das seguidas tentativas de sonic boom e pulverização de pedais, cordas e amps.

Segundo os músicos, Rick Rubin desapertou os coturnos de todos durante as gravações - o contrário daquela panela de pressão gerenciada por Bob Rock. O que não deixa de ser curioso, já que, à vontade, todos contribuíram em cada uma das faixas (pela 1ª vez na história da banda) e em vinte anos foi o momento em que soaram mais fiéis às suas origens. Da parte puramente técnica, as texturas estão mais secas e nítidas, conferindo maior dinamismo e uma pegada mais efetiva ao instrumental. A guitarra-base parece uma motosserra assassina e a cozinha é uma muralha de coesão. Isso que é um som de bateria, pelo amor do Bart. Não é à toa que o Slayer não largava do sujeito. É realmente um badass moderfocka.

O resultado está a meio passo do berserker defenestrador que o Metallica já foi um dia, mas ainda com resquícios do feeling hard que vem sendo destilado desde Load (1996) - o que deve desaparecer progressivamente se os próximos álbuns mantiverem o direcionamento. Notável também o cuidado do grupo em não se aproximar demais do passado, evitando a temida auto-paródia (exatamente o que muitos andam malhando no disco em fóruns gringos, sem absolutamente nenhuma procedência). Alguns vícios ainda persistem, mas após tantos anos com a fera enjaulada e com um tour-de-force dessa magnitude, fica difícil não se curvar. Não sei por quanto tempo ainda, mas os reis estão de volta.


Faixa-a-faixa:

"That Was Just Your Life" - meu Santo Araya! Intro pulsante e dedilhados sombrios tomados de assalto por um riff cruel e uma pancadaria fulminante. Estamos de volta aos dias do No Life 'til Leather aqui. Um início espetacular.

"The End Of The Line" - essa fica bem no meio da encruzilhada. Quebrada à "Master of Puppets", métrica à "Creeping Death" e com passagens extraídas da cervical hard rocker da banda. Quase uma "Fuel" metalizada.

"Broken Beat And Scarred" - mais pesada e progressiva. Parece um lado B perdido do Justice, com palhetadas rápidas em uma base cadenciada e variações rítmicas com solo do Kirk. Excelente performance do James.

"The Day That Never Comes" - talvez a mais polêmica do disco, revisitando os mesmos climas da inesquecível "Fade to Black". É uma balada pesada que segue uma pegada mais tradicionalesca, com guitarras dobradas e final abrupto. Uma justa homenagem aos velhos tempos e uma auto-referência no mínimo merecida.

"All Nightmare Long" - mostra exatamente como é a banda migrando para o lado mais agressivo. Começa com as nuances do hard pesado da última década e desemboca num thrashão de explodir o seu lado da rua. Catártica.

"Cyanide" - por incrível que pareça, os grooves de Trujillo e a quebradeira de Lars funcionam muito melhor no disco do que ao vivo. Tem jeito de música de trabalho.

"The Unforgiven III" - fechando a trilogia (assim espero) com chave de prata. Não se compara à primeira parte, mas ganha fácil da segunda.

"The Judas Kiss" - o andamento me lembrou algo vindo do Angel Dust do Faith No More, com alguns riffs e nuances em slow-tempo à Soundgarden. Estranho, mas logo emenda num hardzão metálico de primeira linha.

"Suicide And Redemption" - instrumental colossal de dez minutos. Fazia tempo, hein.

"My Apocalypse" - me diga você, fã de Kill 'Em All e Ride the Lightning: como não sorrir de alegria em ouvir um speed thrash sangüinário como esse saindo novamente dos PA's do Metallica? Mike Portnoy disse que é a melhor música deles desde "Dyers Eve". Roubou a minha deixa o baterista de araque (sic).


Ps: apesar da capa mais tenebrosa de sua discografia, esse eu vou comprar. Faço questão.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

BIG BROTHER ZOMBIE

E os mortos-vivos invadem o sistema de vez. Dead Set é o novo projeto dos produtores britânicos do Big Brother. É. Isso. Big Brother. Anjo. Imunidade. Pedro Bial. Filmado na casa atual do programa, a série em cinco episódios será exibida até o final do ano pelo canal digital E4. Sem maiores infos até agora.

A idéia e o roteiro são de Charlie Brooker, escritor de comédia, crítico e colunista do UK Guardian. Na trama, os participantes do reality show se beneficiam do isolamento imposto pelo programa, enquanto lá fora um apocalipse zumbi assola o planeta. Segundo o Guardian, "a casa do Big Brother se torna o único lugar onde as pessoas podem se abrigar dos zumbis. E os participantes do programa não sabem do massacre que está acontecendo lá fora. É como o 24 Horas 'mas com zumbis'".

Apesar do humor cáustico dos britcoms aliado aos monstros preferidos deste que vos escreve, eu ainda estava cético quanto ao BBZ. Mas agora, após esse teaser dos infernos...



Sensacional. Só assim pra eu assistir um Big Brother!

Na trilha: Rob Zombie Live! Hell Yeah!

terça-feira, 2 de setembro de 2008

VELHO, MAS NEM TANTO


Vez ou outra alguma grade de programação meia-boca resgata do limbo uma relíquia digna de nota. Semana passada, o SBT exibiu Sepultado Vivo (Buried Alive, 1990), um competente made for TV que resistiu firme ao tempo. A premissa era simples: marido envenenado pela esposa e seu amante é inadvertidamente enterrado vivo e volta para se vingar. Básico, mas funciona aqui maravilhosamente bem.

Mais conhecido por seus trabalhos na TV americana, o galã Tim Matheson está perfeito no papel do marido traído que retorna para uma vingança bem ao estilo do Antigo Testamento. Jennifer Jason Leigh (sempre gostei dessa menina) faz a esposa infiel, com visual blonde fatale, algo entediada e absolutamente ordinária. E William Atherton faz aquilo que sabe no papel do amante: um belíssimo canalha filho da puta para constar em negrito no seu (extenso) currículo de canalhas filhos da puta.

Somado a um roteiro enxuto e um elenco de apoio eficiente (destaque para Hoyt Axton, que faz o xerife), o filme ainda conta com uma direção meticulosa. Foi o primeiro longa de Frank Darabont (Um Sonho de Liberdade, O Nevoeiro), já sob forte influência das atmosferas à Stephen King que ainda permeiam sua carreira. O resultado é um ótimo thriller de suspense B.

O triste é que eu não dei nada por este filme na época em que chegou às locadoras. Adivinha porquê.


Ah, essa CIC Video e seus passeios cannábicos pela Pousada do Sandi... Lembro que aluguei por pura falta de opção num final de semana, o que acabou rendendo o inesperado fator surpresa. O "morto-mas-nem-tanto" (putz) foi rebatizado quando chegou às telinhas brazucas e ainda permanece sem uma versão em DVD.

Em 1997, o filme ganhou uma continuação, Enterrada Viva, dirigida por Matheson e protagonizada pela eterna brat pack Ally Sheedy. Mas os primeiros sete palmos é que ficaram na memória.


E falando em memória, uma pequena e tardia revelação. A vultosa seção Operação Resgate (que estreou num post de julho de 2004) ganhou esse nome não foi por acaso.




Me dói dizer isso, mas quem tem menos de trinta anos não vai se lembrar. O seriado Operação Resgate (Salvage 1, 1979) foi produzido pela ABC e exibido aqui pela Globo, na Sessão Aventura, acho. Teve vida curta, mas foi o suficiente pra virar meu programa favorito na primeira metade dos anos oitenta.

Na história, um coroa espertalhão dono de um ferro-velho teve a idéia de coletar os equipamentos que as missões Apollo abandonaram na Lua e revender na Terra a um preço exorbitante. Com o tempo, ele funda um projeto com ex-funcionários da Nasa visando a construção de um foguete nos moldes oficiais, só que mais barato e readaptado para serviços de busca e resgate. Nascia uma possante nave com o singelo nome de Abutre. E por "serviços", entenda-se desde guinchar um iceberg da Antártida à Califórnia até resgatar um satélite feito de ouro que está prestes a reentrar na atmosfera.

Durante a série, a equipe encara um sem-número de ameaças e situações (todas bizarras), mas o episódio em que eles pousam em uma ilha pré-histórica e enfrentam um gigantesco gorila/pé-grande bateu o recorde. Lembro até hoje.


Até pouco tempo atrás (=antes do Google) eu estava começando a achar que a série era só uma ilusão minha, já que ninguém que eu conheço lembrava. Quase uma lenda urbana, como As Aventuras de Cacá.

Se reprisassem essa pérola eu faria questão de não assistir. Pra que estragar?


Site dedicado:
Salvage 1

sábado, 30 de agosto de 2008

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

R.I.P.?


É sempre difícil comentar sobre um personagem com tanta estrada sem patinar em imediatismos e generalizações, tão comuns nesses tempos do editar/publicar. Mas acho que dá pra mandar essa na boa: em seus quase setenta anos, poucas vezes o Batman rendeu interpretações tão criativamente peculiares. Em grande parte, em razão de O Cavaleiro das Trevas e sua proposta revisionista, auto-suficiente e hermética, mas preservando bases cravadas na essência original. Bem, foi o que foi (e vou parando por aqui senão sai outro review) e quem se aventurar pelos quadrinhos do morcego hoje vai se deparar com um cenário muito diferente e, de certo modo, tão arraigado em seus objetivos quanto o filme - para o bem ou para o mal.

Mas quer saber? Batman R.I.P., a nova e polêmica saga, periga ser a melhor coisa publicada do herói em anos.

Antes do lançamento, Grant Morrison, recordista olímpico dos 100 metros de autopromoção, se esmerou no hype. Afirmou em entrevista ao CBR que faria com o Batman "algo pior que a morte" e que seria o fim da era Bruce Wayne como o cruzado encapuzado. E ainda falou mais um monte por aí, desmentindo algumas e se abstendo de outras. Seja como for, o arco, que está agora em sua 4ª parte (Batman #679), pode até não ser uma megaprodução, mas demonstra claramente porque Grant Morrison é Grant Morrison e não um Jeph Loeb qualquer.

Leitura instigante, com climão de labirinto conspiratório e uma boa dose de suspense. É quase uma nova forma de desconstruir/demolir o personagem por dentro a partir de elementos tradicionalmente "intocáveis". Afinal, não é todo dia que vandalizam o bom nome da família Wayne.

Spoilers à frente!


Martha e Thomas Wayne, os pais de Bruce, retratados como junkies, alcoólatras e freqüentadores de orgias. O pequeno Bruce seria fruto do adultério de Martha com Alfred Pennyworth (sempre o mordomo!). A suspeita de que Thomas teria forjado sua morte e agora seria quem puxa as cordinhas do submundo de Gotham. Esse pacote inflamável enfureceu muitos críticos e fanboys, mas até o presente momento teve seu lugar e motivações dentro do contexto. Certamente, grande parte é apenas armação de vilão recalcado - o problema é que este vilão em particular parece ter acesso total aos segredos de Bruce. Mesmo a sua suposta identidade soa tão bombástica quanto improvável, visto que ele alega ser o próprio Thomas.

Mas nada pode ser descartado ainda, já que Morrison, perversamente, brinca com as possibilidades. Ao mesmo tempo em que sugere que tudo pode ser obra da mente depauperada de Bruce (elemento citado pelo roteirista quando comentou o fato de que o herói vive toda essa loucura desde os anos 30), ele também faz questão de mostrar que se trata de um pesadelo bem real.

A trama é focada no retorno do misterioso Black Glove, o "keyzer soze" que tentou assassinar o morcego no arco League of Heroes, também de Morrison. Sem sair das sombras, ele reúne o perigoso Clube de Vilões, que aparenta ser liderado pelo Dr. Simon Hurt. Não fica claro se Hurt é o Black Glove - o verdadeiro antagonista do Batman aqui, considerando que o Clube oferece ameaça real apenas aos bat-sidekicks. Mas pelo andar da carruagem, eu já tenho o meu suspeito principal.

Após o jump >>


É Jezebel Jet, a bela namoradinha do herói. Vários indícios saltam aos olhos (a primeira a receber um contato do Black Glove; esteve presente no momento do colapso mental de Bruce; convenientemente saiu de cena ao ser capturada; perfeita demais pro sempre trágico Darcnaite). Contudo, são pistas óbvias demais, o que contraria a única qualidade totalmente indiscutível de Morrison: ele pode ser tudo, menos datado. Quem em sã consciência poderia imaginar, p.ex., que Xorn era o Magneto (estou avaliando imprevisibilidade aqui, não bom senso)? Essa busca pelo ineditismo e soluções inesperadas é justamente o que dá o tom principal de Batman R.I.P. E nesse quesito, como diria Marcelo Nova, o passado é o futuro, baby.

O Clube representa não só mais um trampo arqueológico absurdo de Morrison (é composto pelos arquiinimigos do velhuscão Batmen of All Nations!), como também uma de suas maiores obsessões: a Era de Ouro.

O próprio visual do bando parece ter sido inspirado na False Face Society, organização criminosa que o morcego enfrentou em Batman #152 (dez/1962). Curiosamente, seu líder mascarado se revelava ninguém menos que o Coringa. Um modelo a ser seguido? Meu palpite é que não, considerando que o palhaço (que, por sinal, está parecendo um primo do Marilyn Manson) já tem uma função bem definida no arco.

Toda essa gana para encaixar o passado camp/infantil/psicodélico/doidaço do velho Batman na dinâmica atual foi provavelmente o maior guilty pleasure de Morrison ao escrever a saga. E prepara o terreno para a punchline não só da edição #678, mas também do arco e, se bobear, da década inteira.


O Batman de Zur-En-ArrhNão dá pra ser mais rebuscado que isso.

Sem dúvida, é o carro-chefe da fixação cinqüentista de Morrison em R.I.P. Enxerto inacreditável de Batman #113 (fev/1958), história Batman -- The Superman of Planet X! (haja maconha, Senhor), onde o morcegão é teleportado para o planeta Zur-En-Arrh e ganha poderes ao melhor estilo Superman. Lá ele conhece um Batman wannabe alienígena que se inspirou nele para defender a justiça em seu mundo. A idéia de revisitar esse passado negro (ou seria colorido?) em tempos de Coringa do Heath Ledger e após oitocentas Crises só poderia ser feito do jeito que foi: tudo não passava de uma indução ilusória na cabeça de Bruce.

A palavra-gatilho "Zur-En-Arrh" foi criada pelo Dr. Hurt para "desligar" a persona-Batman de sua psiqué. Ao mesmo tempo, Bruce, antecipando um eventual atentado psicológico (claro!), criou uma identidade-backup, que é o Batman de Zur-En-Arrh. Infos cedidas pelo infame Batmirim, também resgatado do limbo pré-Crise - aparentemente, o Mxyzptlk do morcego aqui é apenas um agente de racionalização criado pelo herói. Em outras palavras, um grilo falante.

É certo que antes dessa invocação retrô ante-diluviana, poucos compreenderam de cara o significado de certas cenas (os que entenderam ou são freaks ou já estão quase comendo capim pela raiz... dá um tempo!). Ainda mais flutuando soltas dentro da costumeira narrativa fragmentada de Morrison, este David Lynch dos quadrinhos. Ou seja, Morrison é quadrinho que demanda mais que meras folheadas, o que é uma virtude e também um problema. Por mais que seja enriquecedor para o texto e ocasionalmente divertido para o leitor, não é sempre que bate a disposição de sair por aí à cata de referências (é ou não é Alcofa?!). E o Morrison faz todo o acabamento do roteiro em torno disso.

A propósito, não estou acompanhando nenhum tie-in. Com Secret Invasion e agregados já sobrecarregando o sistema (neurológico), é humanamente impossível pra mim. Fora que ainda estou com o bat-radar em frangalhos desde a minha incursão em World War Hulk. Santos caça-níqueis, Batman!


A arte de Tony Daniel é competente, mas não surpreendente. Gostei do novo Batmóvel à Aston Martin (não é nenhum Tumbler, mas...). E as capas variantes de Alex Ross são um show à parte. Fazia tempo que o "Capitão Marvels" não se apresentava tão bem em séries regulares.

Fica a expectativa para próxima edição - que está me parecendo muito, muito divertida - e a resolução da trama que está sendo vendida como "definitiva" na trajetória do morcego. Com dois arcos subseqüentes já engatilhados (um de Denny O'Neil e outro de Neil Gaiman!), tudo indica que o velho cruzado vai mesmo passar o capuz adiante - e, quem sabe, finalmente assumir a posição da sua contraparte na série Batman do Futuro. Ao meu ver, não seria nada mal. Mas duvido que dure.

Ps: Grant Morrison deve ter pirado com o trailer de Batman: The Brave and the Bold!

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

UM HERÓI BOM PRA CACHORRO


É, dessa escapamos. O editor executivo da Marvel, Tom Brevoort, revelou em seu blog a quase-produção de uma série animada do Demolidor nos idos de 1983. Na época, havia um certo hype em torno dos quadrinhos na grande mídia (mas nada comparado ao que ocorre hoje) e a rede ABC quis capitalizar a onda. Logo a network iniciou as negociações com a Marvel para um cartoon do Homem $em Medo a ser exibido nas manhãs de sábado.

Na premissa original, Matt Murdock sofria uma série de mudanças para se enquadrar na telinha. E seus cabelos, agora negros, eram só o começo. Para combater o crime, o advogado ganhou dois sidekicks: sua sobrinha adolescente e seu destemido supercão-guia Lightning ("The Super Dog"!). Juntos, os três enfrentavam as forças do mal em uma van superequipada. Contudo, como o próprio Brevoort chegou a questionar, quem ia dirigir a tal da van? O cego, a "dimenor" ou o cachorro?

O irônico é que essa proposta PG-0 do vigilante chegava numa época em que seus quadrinhos andavam mais violentos do que nunca, via Frank Miller. O rumor que correu nos anos seguintes era de que o projeto foi cancelado devido à capa de Daredevil #184, que trazia o Demolidor apontando uma Magnum .357 para a cara do sossego.


"É, amigo, tenho que admitir... eu tava com o pavio curto"

Na edição, o herói baleava ninguém menos que o Justiceiro. Reza a lenda que isto espantou a alta cúpula yuppie da rede, que pulou fora. Mas segundo Brevoort, a verdade é que houve uma grande reestruturação interna na ABC - coisa comum na área - e todos os projetos de equipes anteriores foram descontinuados.

Já o roteirista Mark Evanier afirma que chegou a escrever o piloto e o conceito da série. Ele lembra que o cão não tinha qualquer poder, funcionando mais como uma Lassie do herói. E que posteriormente a NBC demonstrou interesse pelo desenho, mas que não foi adiante devido às restrições de redes em adotar projetos já descartados pela concorrência.


Já pensou, um Demônio "camp", ao melhor estilo Superamigos?

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

SURPREENDENTES MESMO


Indo direto ao assunto: estou viciado em tudo o que é desenhado pelo John Cassaday. Sim, eu já conhecia, já o reverenciei aqui, mas acho que só agora a parada bateu pra valer. Provavelmente aquele espetacular quase-final de Planetary teve algo a ver com isso. Talvez tenha ativado algum gatilho subconsciente de apreciação artística, sei lá. Só sei com certeza que neste momento sou capaz de ler e reler até os guardanapos que ele rabisca e joga fora. O cara devia mudar o sobrenome pra Crackssaday. Não usei o termo "viciado" à toa. Não mesmo.

Semana passada, decidi quebrar meu auto-exílio de edições nacionais dos mutantes. Mais de dez anos sem comprar nenhuma das revistas mensais dos X-Men. A causa era nobre: o buffy Joss Whedon e mr. Cassaday estavam devolvendo emoção e dignidade aos combalidos heróis em Astonishing X-Men, um primoroso seriado em quadrinhos, cuja primeira temporada me foi apresentada "em primeira mão" pelo surpreendente Fivo (valeu, tricolor!). Após uma segunda temporada ainda mais embasbacante, me senti na obrigação de ter estas jóias em meu poder!

Comprei a edição atual e fui caçar as atrasadas no sebo. Logo de cara, ensacolei a primeira fase completa (X-Men Extra #46-57), entre outras coisas - com a sagrada putaria periódica inclusa. Beleza, doze edições tinindo com Astonishing e umas bobagens ignoráveis (Excalibur, Exilados) a R$ 2,50 cada. Trintão saindo do bolso de um novo e feliz proprietário da etapa inicial de Whedon-Cassaday's Astonishing X-Men. Já estava planejando o investimento na segunda fase.

Mas eis que na semana seguinte (esta!), a Panini Comics divulga o checklist de agosto...


O horror... o horror... agora entendi o porque do "supreendentes". Eu fiquei surpreendido. É a Pixel fazendo escola.

Sabe, não é tanto pelos trinta dinheiros que escorregaram automaticamente pela sarjeta. É uma questão de espaço físico, hoje quase inexistente aqui. Cá estou eu novamente com mais um calhamaço de revistas empilhadas sem destino/propósito.

...

Tsc. A quem estou querendo enganar? É pelos trinta dinheiros mesmo.


Damn!

Aproveitando o assunto sobre encadernados mutunas...


Os Maiores Clássicos dos X-Men - Vol. 5 traz a fase da equipe X com o grande Neal Adams e roteiros dos também imensos Roy Thomas e Dennis O'Neil. O estilo inconfundível de Adams ainda soa visualmente sofisticado (um show de ângulos à parte) e todos estes anos só realçaram a extensão de sua influência. Sem dúvida, ele inspirou muita gente boa. O jovem Bill Sienkiewicz - aquele, de Cavaleiro da Lua - que o diga.

Mas o que me instigou a comprar mesmo foi a capa clássica (justamente homenageada por John Byrne em X-Men #135). Não sei bem o porque, mas se quiser chamar a minha atenção é só estampar o Monolito Vivo esmagando alguma coisa. Adoro um bom kaiju e golems quase tanto quanto quadrinhos e supervilões, então acho que é por aí. Ainda mais com a arte elegante de Adams turbinando a coisa toda com imagens monstruosamente fodas, de cair o queixo.

O lado ruim é que a referida história começa já em sua metade final (X-Men #56, maio de 1969), já que a edição anterior contava com outro artista. E também o fato de que o vilão só aparece em seu estado über-large em parcas 4 páginas. Não chega a diminuir a 'imperdibilidade' da edição - principalmente pra quem desenha a sério -, mas também não desbanca a melhor história do Monolito Vivo já escrita.

Aquela sim, um kaijuzão pra Gojira nenhum botar defeito.