quinta-feira, 30 de maio de 2019

Um


Dizem que a jornada é mais importante que o destino. Só esqueceram de avisar aos cineastas Joe e Anthony Russo. Vingadores: Ultimato entrega tudo que o público médio não-estúpido espera de um blockbuster de qualidade (e mais), além de concluir espetacularmente as três primeiras fases do universo cinematográfico da Marvel Studios. É o auge de um trabalho ousado e faraônico que levou onze anos num projeto inédito até aqui em dimensão, capital humano e conquistas técnicas.

Para um velho leitor de gibis, a recompensa maior é ver na telona vários daqueles conceitos malucos e infilmáveis até há alguns anos funcionando como se tivessem nascidos pra isso. Neste sentido, é o filme mais eficiente já realizado no gênero, com um Taa II de vantagem sobre os demais. Acima de tudo, por entender que não se trata apenas de som e fúria, mas também de coração, altruísmo e sacrifício, a quintessência dos quadrinhos de super-herói desde sempre. Ultimato não cede um milímetro desses fundamentos, em maior parte, veja só, de raiz marvete.

Heróis que são pessoas antes de tudo e com cada um fazendo a diferença no resultado final; uma admirável preocupação pelo estado psicológico geral; tempo e espaço para cada personagem respirar e se redescobrir; narrativa que sabe onde enxugar e o que priorizar; trama imprevisível no ponto de partida, na condução e na conclusão sem reviravoltas mágicas; e tridimensionalidade: cada integrante do núcleo principal, seja herói, vilão ou zona cinza/azul/verde, tem suas motivações pessoais e age de acordo.

É notável como os roteiristas de Christopher Markus e Stephen McFeely, que também assinam Vingadores: Guerra Infinita, conseguem administrar tantos personagens e variáveis. E ainda manter o foco numa premissa complexa para os padrões mainstream e, por isso mesmo, potencialmente desastrosa. De forma sucinta, o roteiro exerce sua lógica interna apoiado em extrapolações simples, cobrindo assim os pontos cegos enquanto leva o espectador para a brincadeira.

No fim, Ultimato não só se apresenta como uma sequência digna para Guerra Infinita, como expande seu conflito e aumenta as apostas.

O filme tem três atos divididos por um exercício de estilo brutal. O 1º terço amarra as pontas deixadas pelo longa anterior em tempo recorde e investe com mão pesada no drama. Num clima funesto, os sobreviventes tentam juntar os estilhaços de um mundo com 50% a menos de seres vivos e todos os estragos decorrentes disso. A 2ª etapa sobe o tom partindo de um princípio bem difundido na ficção pop - mas com uma dinâmica deliciosamente... quadrinhos - e faz uma verdadeira celebração para quem acompanhou os filmes da Marvel todos esses anos. Já o arco final é a experiência Splash Page de George Pérez definitiva. É todo o pay-off e o fanservice que existem no final do arco-íris. Sangue de Kirby tem poder.

Quase todo o elenco principal está integrado ao seu personagem-avatar num nível Christopher Reeve-é-o-Superman de conversação, além de apresentar suas melhores performances até aqui: Jeremy Renner zera o até então subaproveitado Gavião Arqueiro num bem-vindo acerto de contas com o roteiro, Karen Gillan extrai ainda mais camadas da hermética Nebulosa, Paul Rudd precisa fazer muito em muito pouco tempo e o Homem-Formiga dá conta, Scarlett Johansson se atira, literalmente, na evolução de "Nat" Romanoff, o Capitão América de Chris Evans é a melhor personificação do herói clássico que poderíamos ter hoje e Robert Downey Jr. fecha o ciclo com a redenção do personagem de sua vida.

Chris Hemsworth, por sua vez, tirou a sorte grande. Thor foi um dos poucos que mantiveram uma saga própria nos dois filmes. Em Ultimato, confesso, o susto inicial foi grande, porém coerente. Plus: agora sim o loiro está parecendo um Viking.

E a Situação-Hulk. Personagem que a Marvel Studios penou para achar o tom na telona, algo que só aconteceu em Thor: Ragnarok, quando já era tarde demais para qualquer pretensão cinematográfica do Golias Esmeralda & mitologia. A expectativa por uma virada foi lá pro caixa-prego após a ignorada sistemática em Guerra e agora, em Ultimato.

Pensando bem, isso já vinha sendo estabelecido desde Vingadores: Era de Ultron (2015), com a infame derrota do Verdão para o Hulkbuster (Hulkbusters e esquadrões Caça-Hulk existem para serem esmagados pelo Hulk, oras!). Seus poderes nos gibis nunca foram adotados pelo UCM: nada de saltos quilométricos, palmada sônica, fator de cura e o mais importante e muda-vidas, o "quanto mais furioso, mais forte o Hulk fica". O que sobrou é um Hulk limitado e em estado de calma - em Ultimato, em estado de calma baiana. Mark Ruffalo é um sujeito boa-praça, mas nem de longe é um Dr. Bruce Banner. A trama ainda dá alguma continuidade à sua cronologia nas HQs, despejando o personagem direto na fase do Hulk inteligente, o que resulta apenas e tão somente num Ruffalo Verde. Um Hulkffalo.

Paradoxalmente, é dali que sai uma das referências mais bacanas aos quadrinhos - a clássica imagem do Hulk em Guerras Secretas. E outras, que não sei bem se foram referências de fato ou apenas dissonâncias em minha cachola de gibizeiro: o Verdão doando o braço em Planeta Hulk, a aventura espaço-tempo-apoteótica de Vingadores Eternamente, o "1" do Dr. Estranho para Tony Stark paralelo ao timing de Adam Warlock para o Surfista Prateado em Desafio Infinito, Steve Rogers e Gail no final de Supremos 2 e por aí vai. Essas vieram fluídas e precipitadas como lembranças de velhos amigos. E eu agradeço ao filme por isso.

Surpreendente mesmo foi o resgate de dois grandes personagens por dois atores maiores que a vida: Tilda Swinton reprisando a Anciã e Robert Redford novamente como Alexander Pierce. Redford já havia encerrado a carreira em meados de 2018, mas voltou atrás no final do mesmo ano. Esqueça a mera condição de filme-pipoca. Isso já é cinema grande, meu chapa.


Josh Brolin pode não ter percebido ainda (ou é modesto demais para admitir), mas acabou por personificar um dos maiores vilões do cinema. Thanos é fascinante, perspicaz, tem a sua cota de honra distorcida e acredita piamente que está do lado certo da História. Ameaçador e absurdamente poderoso, Thanos protagoniza, fácil, as melhores e mais engenhosas lutas super-heroísticas já feitas até aqui. Mesmo a Capitã Marvel de Brie Larson - um tanto deslocada pelos cameos pontuais - teve seus melhores minutos numa telona, incluindo aí seu filme solo. O ponto alto, claro, é sua frenética e nervosíssima luta com o Titã Louco.

Há pelo menos uns três ganchos antológicos durante a luta de Thanos contra a "Trindade" - também conhecida como Vingadores Primordiais. E fazia tempo que não via uma sala de cinema virando uma arquibancada em final de campeonato. Especialmente no momento "Capitão, o Digno". Memorável.

Quando Jim Starlin criou Thanos no início da década de 1970, a gênese do Titã não indicava uma carreira muito promissora. O autor mesmo comentou: "Você pensaria que Thanos foi inspirado em Darkseid, mas não era o caso quando eu o apresentei. Nos meus primeiros desenhos de Thanos, se ele parecia com alguém, era com Metron. (...) Roy (Thomas) deu uma olhada no cara com a cadeira ao estilo Metron e disse: 'Aumente esses músculos! Se for para roubar um dos Novos Deuses, então roube Darkseid, o único realmente bom!'"

45 anos depois, Thanos está mais vivo do que nunca, coletando Jóias do Infinito em blockbusters bilionários e se tornando uma referência pop no mundo inteiro. E o que é mais incrível: adaptado sem comprometer sua personalidade. Pra mim, que li e reli as sagas de Thanos infinitas vezes, isso é muito além de um presente.

Toda a sequência final reservada ao personagem é sob medida. O momento da transição do Thanos ambientalista para o Thanos niilista é de arrepiar. Era o passo que faltava para o... Dark Side. E ainda corrobora os pensamentos de Jim Starlin sobre uma futura abordagem da Senhora Morte, a convidada que faltava. Promissor como parece.

Já se vão onze anos desde que saí daquela sessão de Homem de Ferro com um enorme sorriso no rosto e a cabeça fervilhando em pensamentos. Alguns viraram texto; outros, atrelados a uma certa melancolia por tempos idos, foram para o mesmo cantinho da memória que já serviu de palco para grandiosas batalhas emprestadas das páginas dos gibis. Eu sabia que ali era o máximo que o cinema real se aproximaria dos quadrinhos e estava mais do que satisfeito com aquilo. Filme após filme, desafio após desafio, a Marvel Studios foi superando aqueles limites - em maior ou menor grau e com resultados variáveis, mas sempre com bom senso, respeito às duas artes e, principalmente, coração.

Vingadores: Ultimato é sangue, suor e lágrimas. O ápice de uma autêntica odisséia cósmica (epa!) e o registro de que um dia duas formas de arte chegaram tão perto que quase convergiram.

Mesmo sendo o mais épico, ambicioso e visualmente deslumbrante, claro, não é um filme perfeito. Capitão América: O Soldado Invernal (2014) segue no topo da minha lista. E ainda tenho um carinho todo especial por Os Vingadores (2012) pelo impacto sobre este leitor ad eternum de Heróis da TV. Junto com Guerra Infinita, Ultimato habita n'algum lugar no éter entre esses dois.

Algo a se avaliar com o tempo. E com sessões infinitas.

quarta-feira, 22 de maio de 2019

A saída da zona é a zona do euro

Ou "Decidindo aprender novos idiomas após os 3 primeiros volumes de Lendas do Universo DC: Novos Titãs".


Há uns 2-3 anos, num belo dia de sol, tive uma epifania de colecionador:

"Construirei um muro ao longo da fronteira da minha coleção; só serão admitidas as passagens de clássicos US-UK incontestáveis e/ou materiais europeus crèame de la crèame como os elencados da Métal Hurlant, da Les Éditions Dargaud, da Les Humanoïdes Associés e franco-belgaiadas afins ou qualquer coisa vinda da Norma Editorial. As raras exceções serão investigadas, avaliadas e baculejadas minuciosamente pelos implacáveis agentes da temida KGBZ, mas, a grosso modo, materiais pop-mainstream serão sumariamente deportados - sendo Marvel/DC regulares abatidos à vista."

Afinal, é pra isso que o DC++ (ainda) está aí.

Eu queria uma coleção física sóbria, modal. Uma coleção de gibis de adulto (adultos lêem Thorgal? Pô, espero que sim), por contraditório em termos que isso soe. Melhorar o espanhol, aprender a ler em francês e italiano. Por mais doloroso que fosse, eu precisava romper com a língua da Krissy Lynn.

Mas, acima de tudo, precisava... ou melhor, preciso enxugar a coleção. Urgente. Já perdi de vista o fim da pilha de leitura. Nesse ritmo, não vou mais ler aquilo tudo. Baphomets, provavelmente não conseguirei ler aquilo tudo nem com uma expectativa de vida de 120 anos.

O que me faltava era a motivação. Mas uma boa, boooa motivação. Uma motivação-pé-na-bunda-toma-tento-vagabundo. E a Panini, ah essa Panini, me deu. Não apenas uma, mas duas, três.

A primeira foi salpicada paulatinamente ao longo dos últimos anos em parceria sórdida com a Amazonos preços. Oh, me perdoe, esqueci um adjetivo aqui: os extratosfericamentefilhosdaputa preços. Graças à Panini e aos cowboys amazônicos agora temos um cenário de dumping para chamar de nosso. Lindo. E agora aguenta aquele material que você aguarda há 15, 20 anos sendo lançado pelo preço de dois rins. 120 reais é o novo 9,90 das Super-Heróis Premium.

A bem da verdade, a pernada que a Saraiva e a distribuidora da Abril deram na praça foi a facada com giratória definitiva. Facada esta sendo amortizada, sem amor, nas costas do público com mensais de 60 páginas por quase 11 mangos e historinhas mequetrefes editadas em papel couché e capa dura com detalhes em hot stamp dourado. A bolha estourou, sim. No colo dos leitores.

Outra boa razão é a questão do quê precisar das atuais Image, Dark Horse, Marvel e DC. Acompanhei a coleção das branquinhas da Nova Marvel. Fabulosos/Novíssimos X-Men, Magneto, Deadpool são bacaninhas. Mas tirando o Gavião Arqueiro de Matt Fraction, o Foderoso Thor de Jason Aaron/Esad Ribic e, talvez, os Vingadores de Jonathan Hickman (que não entendi bulhufas, mas um dia quero), não vejo nenhuma delas figurando em minha seleção de releituras sazonais pra vida toda. Acorda, dogg.

Tudo isso aí só pra chegar aos erros de revisão, adaptação, diagramação e virou passeio pra cima da Panini, insistentes e aparentemente integrados à editora por alteração contratual. Dizem que foi sabotagem interna. E que o assunto já foi resolvido sendo que seus reflexos terminam este mês de maio. Pelos novos posts na página Todo Dia um Erro nos Quadrinhos Diferente, o terror ainda continua - incluindo na edição corrigida de Sandman - Edição Especial de 30 Anos vol. 1, após a já antológica chamada do próprio Neil Gaiman na editora.

Mas o pior, pior mesmo, foi a merda cair em algo que me importa muito. Algo que, sempre que releio, me transforma num Anton Ego menininho gibizeiro. E foi com a muito aguardada reedição dos Novos Titãs de Marv Wolfman e George Pérez. Para mim, necessária e imprescindível - mesmo com o tiozão seboso do Terry Long bangeando a Donna a cada duas páginas. Aí foi demais pra mim.

Como dizia o Millôr: "O grande erro da natureza é a incompetência não doer".

É, realmente Gar. Não é justo que isso esteja acontecendo de novo!

terça-feira, 30 de abril de 2019

Retrospec Abril/2019

5/4 - Deadshot was dead by shot.

8/4 - Shazam! 2 a caminho.


10/4¹ - Divulgada a 1ª imagem de um Buraco Negro da História. Será que essa entra na categoria "fotos ou nunca aconteceu"?

10/4² - Sue Richards vai ganhar série solo, também pela 1ª vez na História. Que dia!

11/4 - Preparem suas vitaminas: Druuna voltará ao Brasil pelas mãos peludas da editora Pipoca & Nanquim. Valei-me, São Onan!


12/4¹ - Peter Milligan, Mike e Laura Allred se reúnem para um novo capítulo de X-Táticos, um dos melhores quadrinhos mutantes dos anos 2000 (os melhores, vai). O retorno será em julho na edição especial Giant-Sized X-Statix #1. Urrú!

12/4² - Alvar Mayor, de Carlos Trillo e Enrique Breccia volta ao Brasil pela pequena-mas-valente editora Lorentz (que fez um pequeno-mas-memorável run de Dylan Dog em 2017). A última vez que o quadrinho saiu aqui foi em Aventura e Ficção #14 (Abril), há 30 anos.


13/4 - Paul Raymond se vai, aos 73. Ao longo da carreira, o tecladista e guitarrista inglês integrou ao menos três bandas clássicas: Savoy Brown, UFO e Michael Schenker Group. Fraquinho o homem.


17/4¹ - A chama de Kazuo Koike se apaga, aos 82. Ele foi um dos mais influentes e reverenciados autores do século passado, com obras como Lady Snowblood, Crying Freeman e, principalmente, Lobo Solitário sendo referências absolutas no mundo inteiro.

17/4² - Jim Starlin também é inevitável: KS do Omnibus de Dreadstar alcança sua meta em 12 horas. E eram quase 70 mil trumps.


22/4¹ - Pôster da turnê brasileira do Dead Kennedys toca o terror na política de extrema direita canarinha.

22/4 ²- Após a imensa repercussão, os integrantes do Dead Kennedys divulgam uma nota afirmando que não autorizaram o pôster da turnê brasileira ilustrado pelo artista Cristiano Suarez. E depois apagaram a nota. Ah, mas o Jello Biafra faz uma falta...

23/4 - O ilustrador Cristiano Suarez printa a prova e mostra o pau, digo, mostra que o Dead Kennedys havia sim autorizado o polêmico pôster.


24/4 - Swamp Thing, a série produzida por James Wan, ganha seu primeiro teaser. É realmente um monstro do pântano que se vê ali - e com cameo do Demônio Azul. Mas esse visual, essa fotografia, esses filtros... acho que já vi algo parecido antes, hein.

26/4¹ - E a novela hardcore não acaba: em nota oficial, o Dead Kennedys cancela a turnê brasileira visando "a segurança do público". Uau, o Jello Biafra realmente faz falta.

26/4² - Google também é afetado pelo estalar de dedos de Thanos. É só clicar na Manopla à direita.


28/4 - Capitã Marvel ultrapassa Mulher-Maravilha na bilheteria doméstica. E os anti-Brie Larson pira.

29/4 - O fim de semana de estreia de Vingadores: Ultimato bateu tantos recordes que ganhou até um artigo no Wikipedia.


30/4 - Se vai Peter Mayhew, o eterno Chewbacca, de Star Wars. Cheguei a fazer um pequeno tributo ao Mayhew no BZ certa vez. Ele era meu herói particular, já que além do simpático wookie, ele também foi o temível Minoton, no clássico da Sessão da Tarde Simbad e o Olho do Tigre (1977). Inesquecível Mayhew!

domingo, 28 de abril de 2019

Amo Vingadores: Ultimato 3000



Se eu dissesse para aquele moleque embasbacado com a inesquecível Grandes Heróis Marvel #1 que um dia o mundo inteiro conheceria Thanos... provavelmente ele acreditaria, já que sua visão de mundo, ainda relativamente inocente e sonhadora, permitiria tal devaneio. Mas nada que durasse muito.

Thanos, cara. Thanos.


Como disse o Dr. Estranho na reta final de Vingadores: Guerra Infinita, "estamos no fim do jogo agora". Errado duas vezes: estamos em Vingadores: Ultimato - numa das maiores vaciladas de adaptação de títulos em português; e não estamos só no fim do jogo, mas numa final de campeonato.

Daquelas pra ficar na história.

sábado, 20 de abril de 2019

O salmo da Wax Trax!

Pra quem foi tomado de assalto por aqueles loucos de Chicago no fim da década de 1980, o trailer de Industrial Accident: The Story of Wax Trax! Records é puro deleite de bad trip boa. E "com simpatia".


Só mesmo um doc longa-metragem para descrever a importância da Wax Trax! para a cena alternativa americana. A loja/gravadora fundada por Jim Nash e Dannie Flesher foi seminal durante a efeverscência do pós-punk, da new wave, da eletrônica e do industrial do início dos anos 80. Seus padrões artísticos, estéticos e comportamentais transgressores e anti-establishment se estenderam muito além da seara musical - e continuam até hoje, ironicamente inseridos até no universo pop, ainda que a esmagadora maioria do público (e dos artistas) sequer se dê conta disso.

Em terra brazilis, onde as informações chegavam com alguns anos de atraso e à conta-gotas, o selo teve até certa exposição. Principalmente através da revista Bizz e das matérias do jornalista André Barcinski, incluídas também em seu livro Barulho: Uma Viagem pelo Underground do Rock Americano.

Meu 1º contato com a Wax Trax! foi justamente pela icônica revista. O marco zero foi a capa do Sepultura circa Arise levando um corta-luz das verdadeiras estrelas da edição: o Ministry. "Massacre eletrônico"? Já me ganhou só pelo conceito - lembrando que, naquela época, Internet só existia em filmes, livros e gibis; e como importar discos era para ricos, o jeito era viver de conceitos.

Depois vieram os artigos da célebre turnê Ministry/Helmet/Sepultura e do lançamento dos clássicos The Mind Is a Terrible Thing to Taste e Psalm 69 em terra, oh, brazilis. Finalmente. E assim meu salário de office-boy foi pro sal numa tacada só.

Houveram outras convergências pelo caminho, mas o trecho da estrada com tijolos de ouro foi esse. Embora sejam mais do que raros, tenho certeza que existem por aí outros brasileirinhos sobreviventes que ainda curtem Ministry, Lard, Revolting Cocks, Pailhead, Chris Connelly, KMFDM, My Life with the Thrill Kill Kult, Laibach, The Young Gods e outras pérolas WaxTraxianas que trilharam um caminho semelhante. Isso se as vicissitudes do dia a dia - também conhecidas como família, filhos, plano de saúde, aluguel, IPVA, etc. - não expurgaram essas lembranças e sensações à fórceps, deixando no lugar só um toquinho útil pagador de contas.

Se for o caso, uma sessão de Industrial Accident poderá reativar alguns neurônios há muito adormecidos e causar um grande estrago no seio familiar...

terça-feira, 9 de abril de 2019

Big Guy & Rusty sonham com ovelhas elétricas?


Deu no Guia dos Quadrinhos: há 10 anos, Big Guy & Rusty, o Menino-Robô era publicado no Brasil. Criado por Frank Miller e Geof Darrow em 1995, o título teve vida relâmpago, se bastando em duas edições fininhas lá na gringa via selo Legend, da Dark Horse. Mas rendeu uma moralzinha cult com direito a remasterização em hardcover, action-bonequinhos e uma série animada espetacular.

Mesmo com o hype há muito perdido - se é que teve algum naquela era pré-Internet - a microssérie acabou saindo por aqui 14 anos mais tarde. Provavelmente, a Devir deve ter visto ali a chance de uma capitalizadinha com a (acredito) boa receptividade da HQ mais conhecida da dupla, Hard Boiled - À Queima-Roupa, republicada aqui um ano antes. Com isso, fecharam em duas graphics os trampos do power duo em formatão magazine. Grandes caras.

E por que o formatão foi importante? Essa é fácil.




A arte de Geof Darrow é um show à parte, isso até a minha bisavó sabe. Mas com esse detalhismo obsessivo nem mesmo as dimensões 21 x 28 cm da brochura parecem segurar o rojão visual; e provavelmente nada menos que as medidas de um Wednesday Comics ou de um King-Size Kirby fariam justiça ao seu TOC preciosista-micronauta.

Era a trincheira perfeita para Miller sair metralhando suas críticas curtidas em humor negro-vantablack ao american way, ao capitalismo e ao consumismo desenfreado. Tudo no mesmo balaio do sci-fi militarizado de Hard Boiled, Bad Boy, Martha Washington e, Milton Friedmans me mordam, suas colaborações na franquia RoboCop. Só lembrando que se tratava daquele Miller recém-saído da DC cuspindo marimbondo contra a censura e o establishment - mas ainda não era aquele Miller pós-11/9, danificado e cheirador de napalm pela manhã. Ainda era um meio-termo anárquico, divertido e combinando genialmente panfleto com escapismo.

A respeito de Big Guy & Rusty, muito se comenta sobre a patriotada impressa por Miller na história. Mais especificamente, sobre o fator Complexo do Salvador Branco/Narrativa do Salvador Branco, explícito numa sequência em que autoridades do Japão delegam aos EUA o status de xerife do mundo. Isso rola, exato e previsível como um relógio suíço. A diferença é que os perdedores têm o seu lado da história contado por eles mesmos; e o lado dos vencedores é conduzido num tom conciliador e amigável, não superior ou sectário.

Em contrapartida, já desarticulando minha própria defesa, uma das melhores coisas de Big Guy & Rusty é justamente seu ufanismo americanóide. Tudo à moda antiga, cheio de valores morais ("Agora é matar ou ser morto! ...Não! Tem que haver outro jeito!"), cristãos ("Eu só tenho um Deus, meu chapa e, com certeza, ele não é um iguana supercrescido!") e todos aqueles anacronismos deliciosos convivendo com cenas frenéticas de ação em toda a sua glória chuta-bundas/yippee-ki-yay-motherfucker.

Dá pra ver quanto o Mark Millar bebeu daqui para compor seu Capitão América Ultimate. E até mesmo o Universo Cinematográfico Marvel recente - mas aí é só suspeita minha.


Fuck yeah.

Ao contrário do que geralmente ocorre, soube da existência de Big Guy & Rusty anos antes da HQ sair aqui, pela série animada. Foi co-produzida pela Columbia TriStar Television e Adelaide Productions - o mesmo pessoal das divertidas Men in Black: The Series e Godzilla: The Series - em conjunto com a Dark Horse Entertainment e exibida pela Fox Kids. Coisa linda de joint venture.

Na TV aberta, o desenho passou na Globo na década de 2000, ou seja, nos últimos suspiros da sua faixa infantil matinal. Nem imagino em qual programa - seria aquele com a ruivinha marota, a TV Globinho? Àquele ponto, eu já era um autêntico Sargento Rock de guerra civil brasileira, então é certo que conheci pela tevê de alguma repartição pública, enquanto me decompunha em vida com uma senha de atendimento na mão; por sinal, o mesmo cenário desolador que me fez descobrir o igualmente maravilhoso desenho Avatar: A Lenda de Aang. Como um alívio em meio a tamanha tortura, foi amor à primeira assistida.

O conceito era, basicamente, os ícones do cânone pop-animê (Astro Boy/Jet Marte, Gigantor, Pirata do Espaço) e da cultura kaiju (Godzilla, Gamera, Rodan) colidindo com a ficção-científica americana do pós-Guerra. Irresistível.

Uma das grandes sacadas do cartoon foi adotar a ingenuidade e bom-mocismo dos 50's, apesar de se passar num futuro próximo - e isso inclui a patriotada, assumida de forma ainda mais incisiva e paródica que na HQ. Sempre há uma bandeira tremulando em algum lugar, os valores americanos são repetidos como mantras, a propaganda da máquina de guerra yankee é massiva, a trilha tem várias passagens em ritmo marcial e até o tema de abertura lembra um orgulhoso e grandiloquente hino militar.

A galeria de vilões era esparsa e variada: robôs, alienígenas, aberrações genéticas (e nucleares e químicas), mais robôs, monstros interdimensionais, evil cientistas e ainda mais robôs. Dos poucos recorrentes, meus favoritos eram os masterminds terminators da Legião Pró-Máquina (Legion Ex Machina), que mereciam até um desenho solo. Apesar de censura livre, o desenho era generoso em gore e grafismo sugeridos. Por várias vezes pesquei referências às nojeiras de O Enigma de Outro Mundo, The Hidden - O Escondido, A Mosca e até Do Além. O simples design de alguns monstros já parecia quase demais para um desenho voltado para crianças.


A parte técnica era um primor, com animação acima da média e arte mimetizando, à medida do possível, os traços originais - tanto que impressionou o próprio Darrow. O elenco de dublagem era um dream team: Jim Hanks (irmão do Tom) como o Tenente Dwayne Hunter, o piloto de Big Guy; o saudoso R. Lee Ermey como o General Thornton; o veterano ator M. Emmet Walsh como Mac, o mecânico mais velho de Big Guy; Stephen Root (de Corra!) como o ganancioso Dr. Axel Donovan; Gabrielle Carteris (a Andrea de, opa, Barrados no Baile) como a Dra. Erika Slate; o grande Clancy Brown (a voz definitiva do Lex Luthor!) fazendo quase todos os integrantes da Legião Pró-Máquina; o mestre Tim Curry como o Dr. Neugog; e fazendo a voz estridente de Rusty, a talentosa Pamela Adlon - a impagável Marcy, de Californication.

Já a relação gibi-desenho era curiosa, considerando o minimalismo típico do Miller noventista. Além do trabalho de adaptação, o desenho desenvolveu todo o background da HQ, criando do zero quase todos os personagens, cenários, motivações e objetivos a médio/longo prazo. A única grande convergência é o episódio de estreia, que começa do ponto onde o quadrinho parou (Big Guy e Rusty salvando vacas de uma abdução alienígena!), mas na verdade é uma adaptação livre do gibi inteiro, com alguns diálogos e cenas adaptadas ipsis literis. Muito legal.

A grade de cartoons americanos sempre foi competitiva e implacável. Assim, Big Guy & Rusty, o Menino-Robô foi uma pérola de vida curta, durando apenas 26 episódios em 2 temporadas - e nenhum home video para a posteridade. Tive que me contentar com aquele pack TV-rip em baixa resolução da Baía do Pirata. Sem grandes revisionismos da velha geração ou reverências da nova, segui resignado com a certeza que a viagem terminava ali.

Contra todas as (minhas) expectativas, em julho de 2016 veio a quase-redenção: Big & Rusty, the Boy Robot finalmente foi lançado em DVD.


Não foi um home video per se, mas um DVD MOD (made on demand) exclusivo da Amazon. A prática é corriqueira da gigante americana e mostra que: 1) mesmo obscuras, algumas séries tem sim uma demanda expressiva, saudosista que seja; 2) é uma das maneiras mais fáceis de fazer grana investindo uma merreca: o DVD é o cúmulo do básico, com a capinha impressa em HP Deskjet e autorado sem extras de qualquer tipo, constando apenas o menu de seleção com o nome dos episódios. Consumidor de DVD MOD é second-class citizen na visão das distribuidoras.

Mesmo assim, estava disposto em converter meu desvalorizado, mas suado dinheirinho nos 27 Trump$ e 99 + shipping para ter em minhas mãos putrefactas este item superlativo da minha coleção pop por ordem autobiográfica®. Mas bucaneiro véio nunca se endireita, então resolvi fazer pequenas escavações atrás de um lendário baú do tesouro em forma de arquivos matroska/container do DVD da série. Ou ao menos um DVD-rip em mp4. E nada.

Fui procrastinando e enrolando o carrinho da Amazon-US igual noivo fujão. Até que, há algumas semanas, sob um ímpeto fecha-compra ferrado e com a página amazônica escancarada, fiz uma última busca no Yandex. Dessa vez, com um resultado novo por ali: uma página japonesa - com tudo o que isso representa - trazendo a lista dos episódios em mkv e um magnet link solitário lá no finzinho.

Colei no µTorrent sem grandes expectativas e... não é que milagres acontecem?

Hooray!

Clique aí no Tetsujin 28-go - o Gigantor, pô - para copiar o magnet link.


O torrent agora está na Baía do Pirata também. E em outras fontes.

Sobraram poucos seeds, é verdade. Demorei uma vida pra completar esse download. Então vou manter os arquivos semeando ainda por um bom tempo. Não direto 24/7, mas ao menos algumas horas, todos os dias à noite. E quase direto nos fins de semana.

E a quem colaborar possa: que tal degustar esse torresmo, subir os episódios em alguma conta do Mega ou Mediafire e espalhar a palavra? O espírito público agradece.

Maratonei o desenho reservando certa condescendência para um possível envelhecimento técnico e narrativo. Felizmente, foi desnecessário: a série continua tão espirituosa, eletrizante e divertida quanto da primeira vez. Pode até ser uma Síndrome de Peter Pan (é provável), mas já quero conferir mais uma vez os "golpes movidos a plutônio" de BGY-11, vulgo Big Guy, e os "poderes núcleo-protônicos" de Rusty - que, lembrando, não tem "receptores de dor".

O tiozão do Anime Abandon concorda comigo.


Ps: é tarde demais pra sonhar com aquele live-action?

domingo, 31 de março de 2019

Retrospec Março/2019


1/3 - Foi-se Stephan Ellis, ex-baixista do grupo Survivor. Quem é terráqueo de 1982 pra cá, reconhece em 0.01 segundo os acordes pulsantes de baixo que abrem o clássico "Eye of the Tiger".

3/3 - O desenhista Mike Deodato Jr. anuncia sua saída da Marvel para buscar uma carreira autoral. 24 anos de editora, trabalhos muito bons e outros muito ruins, momentos de baixa e de alta popularidade - The Full Marvel Experience. Fácil um dos maiores artistas brasileiros do circuito internacional de quadrinhos. Kudos!

4/3¹ - Keith Flint, vocalista do grupo The Prodigy, pega a saída pela esquerda, aos 49. Com o grupo, Flint foi um dos pilares do big beat eletrônico que explodiu na segunda metade dos anos 90. Ouvi The Fat of the Land até furar o CD.


4/3² - Luke Perry também parte, aos 52. Será o arrebatamento? E saindo do armário após 3 décadas de cimérias negações: eu acompanhava Barrados no Baile (e Melrose...) e ainda torcia pela volta dos pombinhos Dylan & Brenda, mesmo com ela expulsa da novelinha há tempos. Pronto, escrevi.

5/3 - A fila já andou: Berserker Unbound é o novo trabalho de Mike Deodato Jr. com o badalado Jeff Lemire - eles ficaram amigões após trabalharem juntos em Thanos. Na história, um guerreiro medieval e seu arqui-inimigo são transportados até uma metrópole dos dias atuais. Negócio meio assim, Conan em Nova Iorque.

6/3 - Idris Elba substitui Will Smith como o Pistoleiro na sequência de Esquadrão Suicida. Não é todo dia que pinta um Heimdall.

13/3 - J.M. DeMatteis quer saber (e eu também) por que ainda não coletaram o run dele com Mike Zeck, Paul Neary e John Beatty no Capitão América.

15/3 - James Gunn retorna à direção de Guardiões da Galáxia 3. Fontes afirmam que isso só foi possível depois que ele prometeu evitar piadinhas como a do Pacman em GdG 2.


16/3¹ - O Rei da Guitarra Surf Music Dick Dale se vai, aos 81. Dale estourou mundialmente com o clássico "Misirlou" na trilha de Pulp Fiction (1994), mas era dono de uma discografia impecável - os discos sessentistas do mestre são discoteca básica.

16/3² - Mike Zeck avisa que o run dele com J.M. DeMatteis, Paul Neary e John Beatty no Capitão América (ufa) já foi compilado sim, num Omnibus lá na Europa. Que sabichão.

20/3¹ - Cancelamentos em série na Salvat. Já podemos seguir com o cortejo fúnebre daquela coleção do Conan. Ou esperar pela Panini... Nah, é melhor o cortejo.

20/3² - Planeta DeAgostini confirma a coleção do Príncipe Valente após a fase de teste. E vai precisar ser valente mesmo.

21/3 - O ex-presidente Michel Temer vai em cana. Foram gastos na operação 150 quilos de alho, 240 litros de água benta e 300 crucifixos de vários formatos e tamanhos.


"Agora todo dizendo Xisss..." - putz, péssima...

23/3 - Mansão X sob nova direção. Jonathan Hickman já mandou trocar até a fachada.

24/3 - A Panini também erra feiamente em Sandman - Edição Especial de 30 Anos vol. 1. O horror, o horror...

25/3¹ - A editora Mythos anuncia Hellboy Omnibus - Sementes da Destruição. Fora o Omnibus slim (368 págs.), Sementes já foi publicada por aqui umas 4 vezes. Material inédito pra quê?

25/3² - O ex-presidente Michel Temer é liberado da cana. O staff de segurança já o aguardava nos carros, mas ele preferiu seguir pra casa voando.

26/3¹ - Após passar vergonha em escala mundial, a Panini anuncia o recall de Sandman - Edição Especial de 30 Anos vol. 1. E também jura pela sua mãe mortinha que a revisão vai melhorar.

26/3² - Da UTI, a Salvat Brasil avisa que ainda não morreu.

Devido ao grande número de imagens enviadas, a partir de hoje, iremos postar quatro vezes ao dia.
Publicado por Todo Dia Um Erro Nos Quadrinhos Diferente em Sexta-feira, 29 de março de 2019

29/3 - A página Todo Dia um Erro nos Quadrinhos Diferente agora está reportando todo dia quatro erros nos quadrinhos diferente.

31/3 - Se vai o rapper Nipsey Hussle, 33. Hussle lançou um dos melhores álbuns de rap do ano passado (o indicado ao Grammy Victory Lap) e é mais um talento a engrossar a longa e triste estatística de morte por armas de fogo.

quarta-feira, 27 de março de 2019

Girl, You'll Be a Danvers Soon


Às vezes, uma parte supera o todo. E no caso de Capitã Marvel, são várias as partes: o plot intrigante com flashbacks e reviravoltas, a origem simplificada que unifica toda a tralha cronológica da personagem nos gibis, o subtexto feminista pero sin perder la ternura, a ambientação na década do Nirvana, o orçamento parrudo garantindo um elenco de responsa, o CGI de grife. Por último, e o mais importante: uma Carol Danvers show-de-vizinha envergando delícia o uniforme da heroína.

Então por que Capitã Marvel é o filme mais sem sal da Marvel Studios até agora?

Antes, minha reverência ao mero fato de existir um filme da Capitã Marvel; também conhecida no dialeto marvete como Miss Marvel, Binária e Warbird. Isso era algo impensável até outro dia, fruto apenas de meus devaneios com a Feiticeira Joana Prado num maiôzinho preto cavado com um raio amarelo estilizado. "Depois dela, não tem pra mais ninguém..."

Mas claro, isso foi antes de mergulhar no mythos da heroína e no ethos de sua trajetória, o que me fez tridimensionalizá-la (droga). Em termos de carreira editorial, Carol Danvers é Amélia desde o Dia 1. Difícil não ficar penalizado após uma overdose de Miss Marvel safra 1968-2000 direto no lobo frontal. O mundo é machista, cinzento e cruel, mas graças a Stan Lee, os piores dias ficaram de fora da adaptação.

O filme tem início no outro lado da galáxia, no coração do Império Kree. Vemos a protagonista sendo treinada por seu mentor Yon-Rogg e integrando o grupo black ops Starforce. Amnésica e atormentada por déjà vus e pesadelos recorrentes, ela detém poderes vastos e quase incontroláveis. Por isso é vista pela entidade Inteligência Suprema como a chave para a vitória Kree na guerra contra os perigosos transmorfos Skrulls. Após uma missão conturbada, ela vai parar acidentalmente na Terra. Lá (ou aqui?), a heroína une forças com Nick Fury, Agente da S.H.I.E.L.D.®, e juntos investigam pistas que podem revelar a sua verdadeira origem.

Que um raio cósmico do Mar-Vell me parta se esse não foi um resumo conciso e sem spoilers.


Já elocubrei muito sobre como arrumariam a zona disfuncional que é a timeline de Carol Danvers nas HQs. Mas até que fizeram uma boa triagem do revamp setentista de Chris Claremont, eliminando a clicherama donzela-em-perigo prévia e usando a Guerra Kree-Skrull como ponte até a fase "on the road no espaço sideral" de Kelly Sue DeConnick, mais recente.

Isso rende até uma metáfora (de boteco) ao ilustrar o choque entre o feminismo clássico e o feminismo do milênio: no início, Carol luta para conquistar respeito em territórios tradicionalmente masculinos (corridas, exército, trabalho); no fim, tem a "iluminação": ela não precisa provar nada para ninguém e seu lugar no mundo - ou, no caso, universo - é onde ela bem entender. O sutiã em chamas de ontem é o "meu corpo/vida, minhas regras" de hoje. Isto posto em perspectiva sóbria, sem panfletos e não-intrusiva; embora deva passar reto para quem acha que mulher na vertical, só na frente de um fogão.

Méritos para o casal de diretores Anna Boden e Ryan Fleck, que assina o tratamento final do roteiro com Geneva Robertson-Dworet (do Tomb Raider 2018, naturalmente) e que, em muitos pontos, até revitaliza o surrado motif original. Um exemplo foi abrir o filme no planeta Kree com Carol tendo flashbacks da Terra, invertendo a ordem do que foi feito nos gibis e que era um porre.

Outra boa sacada foi a origem per se da Capitã Marvel, consumando a Jornada do Herói da Heroína com um ato de coragem, altruísmo e sacrifício. Bem mais digno que a explosão acidental que vitimou Carol nos gibis e a deixou em coma por quase 10 anos até ser reinventada. Ao meu ver, foi um dos melhores gatilhos de superpoderes da Marvel no cinema, senão o melhor. Simplesmente por uma questão de atitude. Some fuckin' attitude.

Estabelecer a trama na 2ª metade da década de 1990 serve aos propósitos da Fase 3 do Universo Cinematográfico Marvel e rende mais que o simples valor estético; o que inclui aí a camiseta do Nine Inch Nails, hoje até meio hipster se for analisar. Mas não muito. A trilha rádio rock FM é mais reconhecível e efetiva que o Best Of über-rebuscado dos Guardiões da Galáxia, embora se mostre pentelha em um ou dois momentos do filme - mas já volto aí.

As piadas envolvendo as maravilhas tecnológicas da época, como o modem 56k, o CD-Rom e o Windows 95, são tão inevitáveis quanto irresistíveis. Mesmo repetitivas, funcionam, talvez por serem podreiras ainda recentes na memória; particularmente, pelas pequenas tragédias diárias estreladas por essas divas high-tech em ambientes de trabalho. E com uma deadline esmurrando a porta...

Mas o troféu cata-piolho noventista vai para a ponta do eterno Stan Lee lendo o script do crássico Barrados no Shopping (Mallrats, 1995). Kevin Smith deve estar liquefeito até agora.

Ok, ok, mas plenos anos 90 e não rola uma ceninha da Capitã Marvel com um pôster "I Want to Believe"? É como perder um gol daqueles que não se perde...

Porém, essa mesma cara noventista reverbera na dinâmica narrativa e faz a canoa virar, olê olê olá. O storytelling é burocrático e boa parte da trama é dedicada à tal investigação de Carol e Fury, que, além de tediosa, é inútil àquele ponto: toda a verdade será entregue de bandeja num momento-chave logo mais e reiterada depois num flashback estendido. Bem diferente da subtrama investigativa de Capitão América 2: O Soldado Invernal, só pra ficar num paralelo tramado de forma eficiente.

Mesmo as cenas de ação são bastante datadas em conceito e executadas no piloto automático. A esta altura, quantas vezes já vimos sequências com heróis e super-heróis lutando em cima, dos lados e dentro de um trem? Ou perseguições de carros num centro urbano? Isso até funcionaria, pela enésima vez, em toda a sua glória noventista clichê-bagaceira, se fosse conduzido com inspiração em craques como John McTiernan, Richard Donner, John Woo, Walter Hill e o saudoso John Frankenheimer. Ou até mesmo o Jan de Bont na veia absurda e divertidíssima do 1º Velocidade Máxima.

Infelizmente, o que temos pra hoje é o casal Boden/Fleck, que decididamente tem pouca intimidade com cinema de ação.


As sequências/coreografias de luta estão no padrão, com uma estrelinha na testa da protagonista. É bem convincente no quesito garota-chutando-bundas-de-marmanjos, o calcanhar de Aquiles de toda película com garotas-chutando-bundas-de-marmanjos. Talvez seja o resultado dos treinamentos, mas o mais provável é que tenha gostado da brincadeira.

No campo dos superpoderes, o processo é desenvolvido gradualmente, o que aumenta o impacto na reta final, com a Capitã detonando cruzadores no espaço como se fosse o Surfista Prateado - e visualmente lembrando a Fênix Negra, apesar da referência ser a fase Binária. De fato, parece a personagem mais poderosa do UCM, superando até o Thor com o Rompe-Tormentas em Vingadores: Guerra Infinita. E aí surge outro problema - e grave: a ausência de um antagonista à altura. Lembra de Hancock?

Capitã Marvel faz parte da lista de filmes vacilões que não providenciaram um supervilão para seus super-heróis. O silêncio da contrapartida inexistente é gritante (daqui a dois minutos não lembrarei o isso significa, mas neste momento faz sentido). Uma boa opção teria sido Ronan, o Acusador, reprisado no filme pelo ótimo Lee Pace, mas é criminosamente desperdiçado. Sobrou o quê? Os dublês da Starforce. Os Skrulls que já apanhavam de Carol quando ela suprimia seus poderes. A paciência do espectador.

Outra bobagem é o hype marketeiro montado ao redor da gatinha Goose, interpretada pelos promissores felinos Gonzo, Rizzo, Archie e Reggie (olho neles). Achava que o bichano seria um MacGuffin ao estilo Orion, do 1º M.I.B., mas é uma cruza de The Thing com o Groot adulto. E tiveram a desfaçatez de copiar uma cena antológica do Groot no 1º Guardiões, quando Goose abate uma fileira de soldados Kree num corredor.

Isso me leva às derrapadas individuais. Samuel L. Jackson exagera no humor de seu Nick Fury. Não é como se o agente fosse um novato com zero traumas. Ele inclusive lista as várias zonas de guerra em que já esteve, então é no mínimo estranho seu perfil gaiato apenas 12, 13 anos antes de Homem de Ferro. Mas aqui ele é somente um alívio cômico às raias do pastelão.

E cá pra nós... que razão tosca pro Fury ficar caolho, hein. Faça-me o favor.

Jude Law até começa bem como Yon-Rogg, mas é prejudicado pela reviravolta no meio da história, que ignora todo o conflito pessoal/ético inerente à situação e o obriga a zerar completamente sua relação com sua ex-protegée/colega/talvez-ficante. Maniqueísmo total.

Da mesma forma sucumbe o excelente Ben Mendelsohn no papel de Talos, o líder Skrull. Inicialmente disposto a tudo para cumprir sua missão, Talos muda de personalidade a partir da fatídica reviravolta. Ele até comenta que toda guerra tem muitos lados, como que preparando o terreno - até aí tudo bem. Mas Skrull bonzinho e conciliador logo na estreia, não dá. Nem ambiguidade moral rola; e deveria rolar, já que é uma guerra, oras. E são Skrulls, pelo amor do Kirby.

Piora-plus: conforme visto na prévia, o visual Skrull ficou mesmo a dever e quase não dá para associá-los aos aliens queixudos dos gibis.

Piora-extra-plus: além de tudo, a prótese/máscara engessa o rosto dos atores, atrapalhando bastante a fala. É constrangedor ver o Mendelsohn lutando pra cuspir algumas palavras pra fora da mordaça de látex. Inacreditável.

Lashana Lynch faz o possível pela sua Maria Rambeau, velha amiga de Carol (e mãe da pequena Monica, outra Capitã Marvel dos quadrinhos). O problema, mais uma vez, é a narrativa pontuada por flashbacks: apesar da grande entrega da atriz, não há uma química entre as duas, simplesmente porque Carol tem pouca ou nenhuma ligação emocional com sua vida pré-Kree. Sem troca, sem cumplicidade. O que vemos são apenas fragmentos da amizade entre as duas e Carol aceitando este fato de forma impessoal.

Já Annette Bening é apenas uma coadjuvante de luxo. Não ao exemplo das coadjuvadas de luxo de Michelle Pfeiffer em Homem-Formiga 2 e Robert Redford em Cap 2, onde eram relevantes e cruciais para o enredo, mas de forma titular, quase reverente. Mal dá para especificar de maneira concreta os papéis que ela desempenha, visto que um deles é uma lembrança distorcida e o outro é um holograma da Inteligência Suprema.

E voltando à deixa musical, "Come as You Are" rolando num toca-discos durante seu confronto com Carol foi um exagero estético. Sem contar a contradição da letra para aquela situação... Quem queria ver o Wilson Fisk versão amoeba alienígena se revelando em algum momento, saiu emburrado da sala.


E Brianne Sidonie Desaulniers, a Brie Larson. Pra mim foi surpreendente a escolha da atriz de O Quarto de Jack e Free Fire: O Tiroteio. Mesmo que a aura de musa indie não se traduzisse em "plano de carreira cult" (vide Kong: A Ilha da Caveira, que ela protagonizou de topzinho molhado ao lado do L. Jackson), um blockbuster-de-super-herói-da-Marvel era anos-luz além do que eu esperava dela pelos quadrantes mainstream. Adorei.

Sua Carol Danvers é teimosa, impulsiva e sagaz. É única. Há um certo desencontro entre seu tom discreto e cool com o clima frenético da produção, mas ela está à vontade no uniforme azul e vermelho. E com um carisma provavelmente maior do que qualquer uma das tentadoras opções; Amber Heard, a Mera, me vem à mente agora... mas tal qual um canto da sereia, não creio que resultaria em um final feliz, especialmente quando se exige maiores recursos dramáticos.

Para melhorar, o timing pessoal da Brianne é admirável, inclusive ao despertar a ira de fanboys analfabetos funcionais. Nada melhor para esquentar os ânimos. Considerando que um dos primeiros inimigos de Carol Danvers nas HQs se chamava Patriarca, fecha-se aí mais um ciclo.

No geral, Capitã Marvel fica a dever. Longe de ser ruim; tem seus momentos e conceitos bacanas que, trabalhados a contento, teriam dado um filmaço. Mas no fim, a falta de ousadia e de culhões na direção cobra seu preço: é só um passatempo agitado e fugaz no espectro aventura/sci-fi, coisa que nem os debuts medianos do Thor, do Capitão América e do Dr. Estranho foram.

É, portanto, um filme sem sal.

Mas confesso: assim como certas coisas na vida, também tenho uma quedinha por filmes sem sal. Depois da 1ª vez, só melhora...

Ps: ao menos o Killing Joke embolsou um gordo royaltiezinho.